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sábado, 1 de novembro de 2014

Humbuckers Fullertonepickups - A Saga (Atualizado!!!)

Coisas nonsense existem em todo canto: no maior produtor de carne bovina do mundo o povo é aconselhado a comer ovo pois a carne ficará mais cara (?)... o povo que vai à rua pedir mudança no governo, um ano depois elege o mesmo governo...

Mas eu sou um cara que não gosta de coisas nonsense, logo, encomendar uma guitarra a um luthier, feita à mão, do jeito que eram feitas 20, 30 anos atrás, com toda a dedicação para ser um instrumento que te acompanhará durante toda a vida, e depois de tudo isso chumbar um kit de captadores de linha, fabricados por robôs que funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem nenhum sentimento, produzindo de forma ininterrupta, não fazia sentido.

Ainda bem que o Felipe e o Fabricio da Dunamiz têm uma parceria bacana com o Edu, artesão dos captadores Fullertone, e como relatado na página sobre a minha nova Les Paul, será ele o cara incumbido de captar o som de minha guitarra.

O Edu fabrica seus captadores como era feito antigamente, conforme me disse em uma conversa:
"Eu faço quase tudo no pickup humbucker: a base, os pinos. A cover eu compro, daí tiro o cromo acerto a espessura na retifica  e dou banho de níquel. As bobinas plásticas compro prontas e depois faço todo o processo de bobinamento, montagem e teste. Não compro na Stewmac, faço como era feito antigamente: compro chapa, furo dobro, ajusto, dou banho de níquel, faço o logo estampado (se houver) e etc... bem artesanal mesmo. Meu trabalho mostra que é possivel fazer como antigamente e com um custo legal."
Na parte do processo que não é manual, o Edu utiliza máquinas que ele mesmo construiu, como a máquina utilizada para enrolar a bobina, como ele mesmo disse:
"Eram 4 bobinas eu alternei fiz duas manualmente e duas de modo automatizado. Esse automatizado foi inspirado na maquina da Gibson Slug 101. No caso da minha fiz com motor de limpador de parabrisa igual à da Gibson."
Uma coisa bacana do processo é que assim como no caso de uma guitarra custom shop, num kit de captadores como esse, você escolhe cada um dos detalhes:

- Com ou sem nickel cover;
- Cor das bobinas de plástico;
- Tipo de imã;
- Tipo de fiação;
- Resistência/saída.
- Uso de parafina;
- Envelhecimento.

Isso mesmo, o Edu faz uma coisa que deixa qualquer maníaco por captadores vintage alcançar o 7º céu em 2 tempos. Ele domina um processo de envelhecimento utilizando nitrogênio líquido, capaz de deixar o captador com as mesmas características de um captador com 50 anos de idade, sem que para isso você precise de leiloar seu rim para o mercado negro.

Nos meus captadores chegamos às seguintes especificações:

- Bobinas pretas;
- Cover e níquel;
- Imãs alnico II;
- Parafina no CJ (parafinar tudo iria fechar demais o som, então parafina-se somente o CJ, pois é um ponto vulnerável a microfonia);

- Captador da ponte:
 -- fios plain enamel (padrão Gibson), para terem um som menos estridente na ponte;
 -- resistência de 8,6k;

- Captador do braço:
  -- fio plain enamel na bobina interna;
  -- fio formvar (mais grosso, padrão Fender) na bobina próxima ao braço, para dar um timbre mais agudo e equilibrar a tonalidade do captador do braço em relação ao captador da ponte;
  -- resistência de 7,6k;

A única coisa que sobrou agora é a minha ansiedade... Abaixo, seguem algumas fotos (gentilmente cedidas pelo Edu) do processo de construção dos captadores da minha Les Paul.


Chapa da base do captador


Chapa cortada e furada.

Detalhe da chapa de furada e ajustada


Slug sendo usinado no torno
Chapas após banho de níquel, ao lado dos slugs

Bobina de plain ename (fios mais finos padrão Gibson)

Bobina de formvar (fio mais grosso padrão Fender)
Bobinas enroladas já com as fitas protetoras
Fitas sendo colocadas no baseplate
Humbucker montado sem Nickel Cover
Fios já organizados
Nickel cover colocado
Finalizado e pronto para o combate!
Para arrematar, o vídeo de uma Dunamiz com os captadores Fullertone (infelizmente não consegui compartilhar o vídeo de uma Les Paul, mas colocarei o link abaixo):





segunda-feira, 26 de maio de 2014

Por que uma guitarra boa é tão cara? - Parte V

O blog ficou abandonado por quase ou mais de 1 mês, e eu enrolando para finalizar a série "Por que uma guitarra boa é tão cara?".

Ocorre que entrei de férias e tinha planejado diversas coisas para o período de férias, inclusive, escrever, mas como nas férias a preguiça impera, o blog ficou de lado. Mas cá tô eu novamente.

Hoje, vamos falar da última parte sobre o que faz uma guitarra ser tão cara, e para maioria dos leigos, a mais óbvia: os componentes eletrônicos e o hardware.

Depois de todo o esmero na seleção das madeiras, construção e acabamento você não vai colocar tarraxas e captadores vagabundos, não é mesmo? Seria como você ter uma Ferrari com motor de Fusca. Fazendo a mesma analogia, um Fusca com motor de Ferrari também não daria muito certo, não é mesmo? Provável que o fusquete nem mesmo aguente a potência do motor de uma Ferrari.

Hardware (ferragens)


Eu lembro de quando um conhecido meu comprou a então recém lançada e badaladíssima 0 (leia o número). A guitarra era vendida por um fabricante como sendo o modelo de um guitarrista conhecido do Brasil, que usava uma outra guitarra, que não era nem ao menos parecida com a 0.

Enfim. Era uma guitarra com um custo baixo pelo que oferecia, e com o marketing da época, foi muito vendida para garotos que naquela época estavam, como eu, começando a tocar o instrumento, e achávamos que a guitarra era o mais importante. *Obs: a guitarra era feia, de um extremo mau gosto, e existia um outro modelo da mesma fabricante, chamada Chrome, que era muito superior em todos os aspectos e era mais barata.

A tendência de um novato em qualquer área fazer besteira é muito maior que a de alguém experiente. Por isso mesmo, quando foi trocar as cordas da guitarra pela primeira vez, apertou as travas da pestana da floyd rose (licenceada, como era uma guitarra barata, não era A Floyd Rose, nem uma de marca grande como Gotoh ou Schaller) muito mais do que deveria.

Não foi o problema ter apertado demais, o problema foi quando preciso de soltar novamente as cordas: PIMBA. A cabeça o parafuso Allen roletou, espanou. Não foi possível tirar o parafuso para trocar a corda. A guitarra que tinha sido comprada em uma loja havia menos de uma semana, ainda estava na garantia e foi trocada.

Ocorre que fabricantes de instrumentos baratos utilizam ferragens feitas com ligas metálicas baratas. Assim, os parafusos e as próprias peças costumam ter um desgaste maior, e muitas vezes anormal, como no caso relatado. Algumas peças metálicas acabam enferrujando com mais facilidade.

Apenas uma explicação técnica sobre essa última parte: dois metais distintos quando estão em contato acabam provocando a oxidação um do outro. Ou seja, as cordas fazem a ponte enferrujar e a ponte faz as cordas enferrujarem. Por esse mesmo motivo deve-se evitar tocar com cordas enferrujadas, pois estas desgastam os trastes e ponte com maior velocidade.

Em guitarras mais caras, os fabricantes utilizam ligas metálicas que possuem maior resistência física, além de serem quimicamente adequadas para que durem mais tempo sem oxidar, e evitem a oxidação das cordas.

No caso de pontes fixas, há menos problemas nas pontes de qualidade mais baixa, mas nas flutuantes os problemas crescem a níveis absurdos. Não é apenas uma questão de durabilidade do material, mas também o quanto aquele conjunto vai prejudicar o som do instrumento. E isso é bastante influenciado pela forma como a ponte é construída. Existe um post bem legal AQUI falando sobre isso. Nesse post não cabe entrar em mais detalhes senão ficará longo demais. Por isso recomendo que leiam o link.

Outra parte crucial do hardware são as tarraxas. Imagine o seguinte: se as cordas de uma guitarra afinada geram em média 47kgf de tensão no braço, dividindo essa tensão igualmente entre todas as cordas teríamos 7,84 kgf de tensão em cada corda, e consequentemente em cada tarraxa. Ops! Aí vem um detalhe importante: você lembra aquela aula de física que você dormiu ou ficou conversando com seu colega do lado na qual falava sobre a lei da alavanca? Não né, afinal, se você dormiu como lembrará? Então vamos explicar de forma bem imbecil:

"Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio que eu movo o mundo" (Arquimedes)

Imagine uma gangorra que tem duas crianças com o mesmo peso em cada um dos lados. Se você for numa das pontas da gangorra e tentar levantar ou abaixar será moleza, não é mesmo? Afinal, teremos um contra-peso que vai fazer aquilo ser banal. Agora, imagine que você tenta fazer a mesma coisa empurrando ou abaixando um dos lados porém fazendo a pressão sobre uma área próxima ao ponto de apoio da gangorra a força necessária será muito superior. Muito superior.

Isso se deve ao fato de que a força aplicada na ponta da gangorra será multiplicada pela extensão do braço da gangorra até o ponto de apoio. Por isso mesmo, quando se aplica essa força mais próxima ao centro, o peso se torna muito maior, já que do outro lado haverá uma força maior sendo exercida, e do seu lado a força será minimizada. Entendeu? Então olhe a figura abaixo que você vai entender:


Pelo mesmo princípio físico, as tarraxas e a ponte vão aguentar uma força muito maior, como pode ser visto na imagem abaixo:


É por esse mesmo motivo que para fazer uma pestana ou um trinado na primeira casa é muito mais duro que na 12ª por exemplo. (se quiser ler mais http://pt.wikipedia.org/wiki/Alavanca)

Voltando então ao assunto, a força que as cordas exercem em cada uma das cordas é muito maior que elas exercem em conjunto no braço, ou seja, tarraxas de boa qualidade vão suportar a tensão das cordas além dos bends e alavancadas do guitarrista e desafinarão muito menos.

Existem ainda outros detalhes de peças de hardware que influem no preço de uma guitarra, como por exemplo o uso de um Straplock (um esquema que prende a correia na guitarra de forma que dificulta que essa correia se desprenda da guitarra e deixe ela cair), roller nuts (pestanas que permitem as cordas deslizarem quase sem atrito, evitando que as cordas desafinem).

Eletrônica

Antes de entrar na pedaleira ou no amplificador, o som da sua guitarra será "lido" pelos captadores, passará pelos potenciômetros, capacitores, e sairá pelo jack da sua guitarra. Então vamos pela ordem do circuito:

1 - Captadores baratos são feitos sem controle de qualidade, e por isso mesmo não se pode "prever" as características sonoras desses captadores de forma muito precisa. Pode ser que você compre uma guitarra barata que possui captadores com um som interessante, mas no geral, a tendência é que não sejam bons. Os captadores mais baratos são normalmente do tipo cerâmico, que são captadores que possuem um imã, daquelas barrinhas cor de grafite, debaixo da capinha. Ocorre que a captação de guitarras mais baratas acaba gerando mais ruído que captações mais caras, além de microfonias e até mesmo captação de sinal de rádio (sim, acontece).

Captadores mais caros são geralmente do tipo alnico (alumínio - níquel - cobalto). São captadores que possuem magnetos separados e uma bobina de cobre em volta desses magnetos. Nesses captadores diversos fatores são variáveis: bitola do fio da bobina, tipo de magneto e nível de magnetização, quantidade de voltas da bobina, utilização de parafina e etc. Os captadores mais caros dos mais caros são normalmente feitos à mão, e a bobina de cobre é enrolada cuidadosamente. Além disso, os magnetos são armazenados em separado para que não sejam desmagnetizados e nem super magnetizados.

As Fender Custom Shop, que são AQUELAS guitarras da Fender possuem captadores que são feitos pelas mesmas pessoas há 40 anos, isso tudo com a finalidade de manter o mesmo timbre que aqueles captadores sempre tiveram.

2 - Fios são sempre fios, e com toda a certeza o componente mais barato na eletrônica do instrumento, mas esses precisam de ser soldados cuidadosamente para que não haja perda de sinal, solda fria, ruídos indesejáveis e etc. E existem sim fios de maior qualidade que outros. Além disso, ruídos gerados por indutância podem ser evitados pelo simples posicionamento adequado dos fios no circuito.

Alguns fabricantes já estão adotando circuitos impressos ao invés de fios de cobre para fabricação de circuitos. Embora haja muita gente que torça o nariz dizendo que isso visa apenas a redução dos custos para os fabricantes, tecnicamente não se pode afirmar que os circuitos impressos sejam prejudiciais para o instrumento, já que erros de soldagem deixam de existir. Além disso, algumas vantagens foram criadas com a adoção de circuitos impressos. Já é possível devido a esses circuitos efetuar a troca de captadores de uma guitarra sem a necessidade de utilizar solda, já que existem captadores que já vem com os conectores adequados para serem simplesmente plugados nesses circuitos.

3 - Potenciômetros e chaves - os potenciômetros e chaves de boa qualidade duram mais. Com o tempo um potenciômetro ou uma chave podem oxidar internamente, e por serem peças mecânicas, existem desgastes que podem ocorrer com a utilização.

Chaves e potenciômetros mais baratos tendem a se desgastar mais rápidamente, além disso podem apresentar certas inconsistências na saída, ou seja, se um potenciômetro logarítmico de boa qualidade é vendido como sendo de 500k, a saída desse potenciômetro possuirá uma variação mínima. Já um potenciômetro de baixa qualidade poderá possuir valores de saída completamente distintos. Além disso, um potenciômetro vendido como logarítmico (ideal para volume) pode ser do tipo linear, que já não é ideal para esse propósito.

Existem também os problemas mecânicos, como por exemplo, uma chave pode ser mais dura em uma determinada região, ou produzir algum ruído não desejado durante a utilização.

Agora, junte todas as possibilidades acima num circuito mal feito. Bem, numa guitarra cara existe controle de qualidade, e dificilmente você terá algum problema com o circuito, que além de ser construído como muito mais cuidado e utilizando componentes de primeira, passará por testes para avaliar o funcionamento adequado desse circuito.

4 - Blindagem magnética - a última parte a se falar sobre eletrônica é referente à blindagem magnética. A blindagem é uma técnica na qual se utiliza uma tinta condutiva ou algum material metálico para blindar as cavidades eletrônicas da guitarra contra interferências eletromagnéticas externas. Isso evita que motores, transformadores, transmissores de rádio, e outros equipamentos gerem ruído no instrumento. A idéia é criar uma "gaiola de faraday" em volta do circuito e assim nenhuma intereferência eletromagnética entra e nem sai da cavidade.

Para fechar a série

Depois de ler tudo o que eu escrevi você pode vir a pensar: "minha guitarra é um lixo", ou, "nunca poderei ter uma boa guitarra". Esqueça seu pensamento negativo e vamos pensar no seguinte: quando comecei a tocar as marcas nacionais que existiam estavam engatinhando, e as antigas não sabiam (e até hoje não sabem) fazer guitarras. Para se ter uma guitarra de qualidade era necessário comprar em uma loja que revendia de algum importador oficial, cobrando os olhos da cara.

Hoje as coisas estão muito, mas muito mais fáceis. Com a Internet ficou mais fácil encontrar instrumentos usados, ou importadores que vendam mais barato. Se isso ainda não for uma opção válida para você, hoje existem diversos luthiers que produzem bons instrumentos no Brasil e com um preço bastante justo. Existem também fabricantes nacionais de peças como captadores.

Eu criei uma página aqui no blog com alguns fabricantes nacionais de equipamentos para facilitar a sua vida. Ou seja, não precisa de cortar os pulsos por você não poder comprar uma Fender Custom shop. Você pode encontrar um luthier que vai fazer uma guitarra excelente por um preço equivalente ao de uma guitarra mediana que você encontra no mercado.

É bom salientar que antes de fechar alguma coisa com um luthier você deve procurar referências sobre o trabalho dele, e ter consciência de que a revenda para instrumentos de luthier não é fácil. Portanto, se você tem GAS, evite. Mas se você não tem, existem algumas vantagens em mandar fazer um instrumento: você poderá escolher cada peça do instrumento, podendo adequar cada detalhe à sua vontade ou ao orçamento disponível.

Espero que tenha sido útil. Até daqui a uns dias.