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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Gibson Les Paul - Tudo que eu preciso saber antes de comprar

Uma das guitarras mais icônicas e desejadas pela maioria dos guitarristas é a Gibson Les Paul, porém, com a grande variedade de modelos disponíveis, maioria das pessoas que almeja uma Les Paul não consegue entender as diferenças entre os modelos, criando dúvidas, mitos e o pior: escolhas erradas. Essas escolhas erradas geram preconceito em relação ao modelo e também prejuízos financeiros.

É importante ressaltar que até mesmo as linhas mais baratas da Gibson tendem a soar melhor e ter tocabilidade superior às suas filhas da Epiphone. Muitas das diferenças entre os modelos da Les Paul têm finalidade meramente estética, e essas diferenças estéticas não influem no resultado final que é o timbre, mas carregam um valor agregado na raridade dos materiais utilizados ou no trabalho para fazer aquele tipo de acabamento.

Uma Les Paul Standard é, naturalmente, melhor que uma Studio, mas não é necessariamente MUITO melhor que uma Studio. O que digo é: no Brasil, uma Studio custa nova na loja cerca de R$8000,00, enquanto uma Standard custa em torno de R$15.000,00. A Standard custa quase o dobro do preço de uma Studio, mas isso não significa que o som ou tocabilidade são o dobro da Studio - em outro artigo falarei melhor sobre isso.

Nessa post eu vou explicar detalhadamente o que difere os modelos e ajudar os futuros proprietários nessa escolha, que parece difícil, mas não é. Vamos começar a falar sobre algumas características de Les Paul, e depois falaremos dos modelos disponíveis.


Características Construtivas


Padrões de Braço


O primeiro ponto que gera dúvidas e preconceitos é a questão do braço da Gibson Les Paul. Quando a Gibson criou a Les Paul em 1952, não haviam referências de guitarras elétricas no mercado, exceto pela Fender Broadcaster (que deu origem à Telecaster). Dessa forma, as primeiras Les Paul foram construídas com um braço gordo, herança dos antigos violões de aço e guitarras semi-acústicas. Esse braço hoje é conhecido como padrão da década de 50.

Na década de 60 a Gibson alterou completamente o design da Les Paul para um modelo que hoje é conhecido como SG. Esse novo modelo possuía um braço mais fino, que não agradou ao próprio Les Paul, mas agradou ao mercado por ser mais confortável. Desse modo, esse tipo de braço passou a ser chamado de padrão da década de 60 (60's slim taper).

Já na década de 70, houve mais uma alteração nos braços das Les Paul, a Gibson adicionou uma voluta na parte traseira do braço, exatamente na junção do braço com o headstock, com finalidade de evitar a quebra do braço. Essa padrão, se tornou pouco popular e passou a não ser utilizado durante muitos anos. É um padrão muito parecido com o padrão da década de 60, porém com a existência da voluta na parte traseira.

Temos então os três padrões de braço:

  • 50, braço gordo conhecido como baseball bat (taco de baseball);
  • 60, braço mais fino;
  • 70, braço semelhante aos da década de 60, porém com a voluta na junção entre braço e headstock.


Formato do Tampo


No princípio um dos diferenciais do modelo Les Paul era o tampo arqueado (archtop), uma técnica de construção que já era dominada pelos luthiers da Gibson, herdada dos violinos. Esse diferencial não traz nenhuma alteração de timbre significativa, mas é um detalhe estético luxuoso, e que encarece o processo de construção do instrumento.

Ao criar um modelo mais barato e acessível da Les Paul, a Les Paul Jr., a Gibson utilizou um tampo plano (plaintop) que hoje é utilizado em alguns modelos com a finalidade de diminuir o custo do instrumento.

Dessa forma, temos:
  • Archtop - tampo arqueado tradicional, mais caro;
  • Plaintop - tampo plano (ou reto), mais barato;


Alívio de Peso


Devido ao corpo grosso, a Gibson Les Paul é uma guitarra naturalmente pesada. O mogno utilizado no início da fabricação Les Paul era de baixa densidade. Com o tempo esse mogno se tornou mais raro e mais caro, tornando as Les Pauls pesadas. Da mesma forma que o braço gordo incomoda a alguns guitarristas, muita gente deixava de tocar com Les Paul devido ao peso. Sendo assim a Gibson criou sistemas de alívio de peso.

O primeiro sistema de alívio de peso utilizado pela Gibson em 1982 é chamado de Nine Holes (nove furos) e é popularmente chamado de queijo suíço. Esse sistema consiste em fazer 9 buracos na parte interna do corpo da guitarra para diminuir a quantidade de madeira e consequentemente diminuir o peso. Esse sistema é o único aceito pelos puristas, que acreditam que não gera nenhuma alteração no timbre do instrumento.

O segundo sistema, utilizado à partir de 2006, consiste na criação de câmaras dentro do corpo do instrumento. Nesse sistema, chamado de Chambered é removida uma grande quantidade de madeira do corpo do instrumento, proporcionando um grande alívio de peso e aumentando a ressonância do corpo, já que a guitarra passa a ser quase uma semi-acústica. Esse sistema é odiado pelos puristas que alegam afetar demais o timbre e diminuir o sustain característico das Les Pauls. Por outro lado, há aqueles que preferem os corpos em câmaras tanto pela leveza quanto pelo som que se alega mais ressonante.

O terceiro sistema, Moderno (Modern Weight Relief), passou a ser utilizado em 2014. São utilizadas várias câmaras menores, visando a diminuição de peso mas sem gerar o feedback (microfonia) existente nos modelos Chambered.

Temos então:
  • Tradicional - alívio de peso moderado ou baixo com pouca alteração na massa do instrumento (nove furos);
  • Câmaras - alívio de peso drástico com muita alteração na massa do instrumento.
  • Moderno - alívio de peso alto com muita alteração na massa, mas de forma menos drástica que o sistema em câmara.


Modelos


Vamos falar aqui dos modelos da linha principal da Gibson. Ou seja, não vamos falar de edições especiais ou limitadas nem modelos assinatura. Vamos nos limitar aos modelos vendidos normalmente no catálogo da Gibson.

Em 2016 a Gibson resolveu separar TODA a linha de guitarras em T (Traditional Specs) e HP (High Performance). A linha HP possui alguns detalhes a mais como tarraxas com afinador automático G-FORCE em todas as guitarras, corte na parte traseira do encaixe do corpo com o braço, para facilitar o acesso às últimas casas, pestana de titânio com sistema zero nut para regulagem de altura, braço mais fino que o padrão 60, knobs e seletor de captadores de metal cromado, case de alumínio, e alguns outros detalhes que podem variar para cada modelo. Nesse post vamos falar apenas das guitarras na linha T, pois em geral as diferenças principais na linha HP já foram citadas.

Abaixo vamos falar dos modelos mais caros até os mais baratos.


Standard


A Standard é o modelo padrão da Gibson, como o próprio nome diz. Na década de 70, as Standards foram renomeadas para Deluxe, e na década de 80 voltaram a ser chamadas de Standard. No final do ano de 2006 a Gibson passou a produzir as Standard com corpo Chambered, o que causou muita polêmica no mercado, e assim, em 2008 a Gibson lançou o modelo Standard Traditional, que seria uma Standard com alívio de peso tradicional, e iremos falar disso com mais detalhes mais à diante.

As Standard possuem corpo em duas peças de Mogno de baixa densidade com alívio de peso Moderno, tampo em Flamed Maple AAA, para dar aquele visual bonito tigrado na madeira, braço fino no padrão 60, com escala em Rosewood, tarraxas Grover com Travas, ponte Tune-o-matic de alumínio, captação Burstbucker Pro (alnico 5) com capa metálica em níquel, potenciômetros com Push-Pull para defasar os captadores e dar um timbre característico de single coil (como nas Stratos e Telecasters) ou de P-90.

Outros detalhes que diferenciam:

  • O acabamento da guitarra possui "binding" ao longo do corpo e do braço. É uma listra de plástico na cor creme colada ao redor do braço e do tampo, criando uma separação visual entre o tampo e o corpo;
  • Marcação trapezoidal na escala;
  • Nome Gibson em madrepérola no headstock;
  • Escala com raio composto - raio mais curvo nas primeiras casas para facilitar os acordes, e raio mais reto nas últimas casas para facilitar os bends nos solos;
  • Ferragens cromadas;
  • Circuito eletrônico impresso (PCB) e não soldado manualmente;
  • O escudo (pickguard) vem com a guitarra, mas não vem instalado, pois muitas pessoas preferem deixar o tampo de maple figurado exposto;
  • Pestana em TekToid, material que imita osso.
  • Vêm com case de fábrica;

Traditional


O modelo Traditional surgiu após a Gibson modernizar o modelo Standard. No lançamento o modelo era chamado de Standard Traditional, passando a ser chamado apenas de Traditional. Ou seja, até 2007 a Gibson fabricou os modelos Standard seguindo os mesmos padrões de sempre, porém, após 2008, com a utilização de corpo em câmaras, push-pull e alguns outros detalhes, os puristas não ficaram contentes com as alterações realizadas pela Gibson, e a fabricante passou a fabricar as Standard nos moldes tradicionais na linha Tradicional. Assim sendo, podemos dizer as Traditional dão continuidade à linha Standard que era fabricada até 2007.

As Traditional possuem corpo em duas peças de Mogno de baixa densidade SEM alívio de peso, tampo em Flamed Maple AA, um maple menos destacado que o das Standard, braço grosso no padrão 50, porém com formato mais arredondado, escala em Rosewood, tarraxas Kluson tradicionais, ponte Tune-o-matic ABR-1 de alumínio (parafusada diretamente na madeira), captação Burstbucker 1 e 2 (Alnico II) com capa metálica em níquel, potenciômetros tradicionais e circuito soldado à mão.


Outros detalhes que diferenciam:

  • O acabamento da guitarra possui "binding" ao longo do corpo e do braço. É uma listra de plástico na cor creme colada ao redor do braço e do tampo, criando uma separação visual entre o tampo e o corpo;
  • Marcação trapezoidal na escala;
  • Nome Gibson em madrepérola no headstock;
  • Escala com raio 12 - raio mais reto ao longo de todo o braço;
  • Ferragens cromadas;
  • Circuito eletrônico soldado manualmente;
  • O escudo (pickguard) vem com a guitarra, mas não vem instalado, pois muitas pessoas preferem deixar o tampo de maple figurado exposto;
  • Pestana em Nylon, material usado nas primeiras Les Paul.
  • Vêm com case de fábrica;
Como dito no início, são guitarras com uma pegada mais roots que as standard, e a variação de preço entre os dois modelos é pequena.


Classic


A linha Classic foi introduzida em 1990 como uma reedição das Les Paul de 1960, e custavam mais caro que as Standard, porém, atualmente as Classic não seguem mais esse propósito, e se tornaram um meio termo entre as Studio e as Traditional.

As Classic possuem corpo em duas peças de Mogno de baixa densidade com alívio de peso tradicional (9 furos), tampo em Maple A, um maple simples sem nenhum padrão de figuração, braço fino no padrão 60, escala em Rosewood, tarraxas Grover com travas, ponte Tune-o-matic ABR-1 de alumínio (parafusada diretamente na madeira), captação Zebra 57 Classic (Alnico II) sem capa metálica em níquel (coloração Zebra com polos aparentes), potenciômetros tradicionais e circuito soldado à mão.


Outros detalhes que diferenciam:

  • O acabamento da guitarra possui "binding" ao longo do corpo e do braço. É uma listra de plástico na cor creme colada ao redor do braço e do tampo, criando uma separação visual entre o tampo e o corpo;
  • Marcação trapezoidal na escala;
  • Nome Gibson em madrepérola no headstock;
  • Escala com raio 12 - raio mais reto ao longo de todo o braço;
  • Ferragens cromadas;
  • Circuito eletrônico soldado manualmente;
  • O escudo (pickguard) vem instalado;
  • Pestana em Nylon, material usado nas primeiras Les Paul.
  • Knobs do tipo "Speed" ao invés dos "Hats" em formato de sino dos modelos mais caros.
  • Vêm com case de fábrica;
Pontos de destaque nesse modelo em relação às Standard são o tipo de alívio de peso que é mais barato de se fazer, o nível do maple, que tem boa qualidade sonora, mas não tem o mesmo apelo visual do maple AAA das Standard, a captação mais barata.


Studio


Em 1983 a Gibson lançou a linha Studio com o intuito de atender aos músicos de estúdio com uma guitarra com sonoridade e tocabilidade de uma Gibson Standard, mas sem alguns detalhes estéticos que encarecem a produção das Standard.

Atualmente as Studio deixaram de ser as guitarras mais básicas da Gibson, pois foram criadas linhas Faded, e Tribute.

As Studio possuem corpo em várias peças de Mogno de média densidade (geralmente 3 peças) com alívio de peso moderno, tampo em Maple A, um maple simples sem nenhum padrão de figuração, braço fino no padrão 60, escala em Rosewood, tarraxas Grover sem travas, ponte Tune-o-matic de alumínio, captação 490R/498T (Alnico II) com capa metálica em níquel, potenciômetros com Push-Pull para defasar os captadores e dar um timbre característico de single coil (como nas Stratos e Telecasters) ou de P-90 (apenas os potenciômetros de volume possuem push-pull, enquanto nas standard os potenciômetros de tom também possuem e fornecem mais variedades de timbres).


Outros detalhes que diferenciam:

  • O acabamento da guitarra não possui "binding" ao longo do corpo e do braço;
  • Pintura geralmente em cores sólidas ou pinturas que mostram menos a madeira.
  • Marcação trapezoidal na escala;
  • Nome Gibson PINTADO no headstock;
  • Escala com raio 12 - raio mais reto ao longo de todo o braço;
  • Ferragens cromadas;
  • Circuito eletrônico impresso (PCB) e não soldado manualmente;
  • O escudo (pickguard) vem instalado;
  • Pestana em TekToid, material que imita osso.
  • Knobs do tipo "Speed" ao invés dos "Hats" em formato de sino dos modelos mais caros.
  • Vêm com case de fábrica;
Repare que o mogno utilizado nesse modelo é de média densidade, o que denota um mogno "menos selecionado" que o utilizado em modelos mais caros, e pode haver mais de duas peças, enquanto em modelos mais caros somente são comercializadas as guitarras com apenas 2 peças. Outros detalhes que fazem muita diferença no valor final da guitarra são a ausência do binding, e também detalhes como o logotipo Gibson estampado ao invés daquele em madrepérola e a captação mais barata (mas de muito boa qualidade).


Tribute


A linha Tribute foi lançada em 2010 como uma versão de acabamento mais simples da linha Studio. Naquela época foram lançadas versões com captadores P-90 e versões com humbuckers, e a linha era dividida entre Tribute 50, Tribute 60, e Tribute 70. A diferença entre os modelos da linha eram o padrão do braço, que seguia o nome do modelo, e no caso das Tribute 70 os captadores utilizados eram Mini-humbuckers. Naquela época, o trussrod cover (capinha do tensor no headstock) vinha com a estampa "Studio", como isso vinha gerando confusão, hoje as guitarras vem com a estampa "Tribute".

As Tribute possuem corpo em duas ou três peças de Mogno de média densidade (geralmente 3 peças) com alívio de peso tradicional de nove furos, tampo em Maple A, um maple simples sem nenhum padrão de figuração, braço fino no padrão 60, escala em Rosewood, tarraxas Kluson sem travas, ponte Tune-o-matic de alumínio, captação 490R/T (Alnico II) com capa metálica em níquel, potenciômetros simples e circuito impresso.

Outros detalhes que diferenciam:

  • O acabamento da guitarra não possui "binding" ao longo do corpo e do braço;
  • Pintura acetinada mais simples que as dos modelos mais caros que são de nitrocelulose.
  • Marcação trapezoidal na escala;
  • Escala em rosewood pode ter qualquer coloração, enquanto nas mais cara, apenas tonalidade escura é vendida.
  • Nome Gibson PINTADO no headstock;
  • Escala com raio 12 - raio mais reto ao longo de todo o braço;
  • Ferragens cromadas;
  • Circuito eletrônico impresso (PCB) e não soldado manualmente;
  • O escudo (pickguard) vem instalado;
  • Pestana em TekToid, material que imita osso.
  • Knobs do tipo "Hat" não translúcidos.
  • Não vêm com case de fábrica, apenas com bag;
Pontos importantes a destacar nas Tribute são a pintura que é muito simples e foi feita para se desgastar com facilidade, dando impressão de ser uma guitarra surrada, consistência na tonalidade da madeira da escala, qualidade visual do maple utilizado no tampo, captação mais barata, os tipos de knobs e a ausência de um case de fábrica.

Faded


Na linha de entrada da Les Paul, temos a linha Faded, lançada em 2009 como a opção de mais baixo custo da Gibson. Assim como as Tribute, foram lançadas como Studio Faded, e vinham com "Studio" no Trussrod Cover. Hoje o trussrod cover vem sem nenhuma estampa.

As Faded possuem corpo em duas peças de Mogno de média densidade (geralmente 3 peças) com alívio de peso moderno, tampo em Maple C, o maple mais simples possível, braço fino no padrão 60, escala em Rosewood, tarraxas Kluson sem travas, ponte Tune-o-matic de alumínio, captação 490R/T (Alnico II) sem capa metálica, potenciômetros simples e circuito impresso.

Outros detalhes que diferenciam:

  • O acabamento da guitarra não possui "binding" ao longo do corpo e do braço;
  • Pintura acetinada e monocromática, mais simples que as dos modelos mais caros.
  • Marcação em bolinhas na escala;
  • Escala em rosewood pode ter qualquer coloração, enquanto nas mais cara, apenas tonalidade escura é vendida.
  • Nome Gibson PINTADO no headstock;
  • Escala com raio 12 - raio mais reto ao longo de todo o braço;
  • Ferragens cromadas;
  • Circuito eletrônico impresso (PCB) e não soldado manualmente;
  • O escudo (pickguard) vem instalado;
  • Pestana em TekToid, material que imita osso.
  • Knobs do tipo "Hat" não translúcidos.
  • Não vêm com case de fábrica, apenas com bag;
Vale a pena observar a qualidade visual do maple, que é C, visualmente ainda menos valioso que o maple das Tribute, a marcação em bolinha, que é muito mais simples e barata que a trapezoidal, captação sem capa de niquel, ausência de case e até mesmo os knobs são mais simples.

Conclusões


Mesmo nas Gibsons mais baratas as ferragens, captação, e construção dos instrumentos são de boa qualidade. As variações da linha mais cara para a mais barata em diversos aspectos se devem muito mais a detalhes visuais que de construção. Um exemplo é a ponte utilizada nas Studio ser exatamente a mesma utilizada nas Standard.

De fato, uma guitarra mais cara tem um feeling e o som de uma guitarra mais cara, mas vamos ser coerentes: você precisa de uma guitarra que custa R$10.000,00 usada ou no mercado paralelo quando você pode ter uma que custa R$3.500,00 e também será de qualidade?

Além disso, conheço pessoas que possuem 2, 3, 4, 5 guitarras que custam entre R$1.500,00 e R$3.000,00. Não é mais interessante neste caso possuir duas guitarras de R$4.000,00?

Abraços!

sábado, 1 de novembro de 2014

Humbuckers Fullertonepickups - A Saga (Atualizado!!!)

Coisas nonsense existem em todo canto: no maior produtor de carne bovina do mundo o povo é aconselhado a comer ovo pois a carne ficará mais cara (?)... o povo que vai à rua pedir mudança no governo, um ano depois elege o mesmo governo...

Mas eu sou um cara que não gosta de coisas nonsense, logo, encomendar uma guitarra a um luthier, feita à mão, do jeito que eram feitas 20, 30 anos atrás, com toda a dedicação para ser um instrumento que te acompanhará durante toda a vida, e depois de tudo isso chumbar um kit de captadores de linha, fabricados por robôs que funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem nenhum sentimento, produzindo de forma ininterrupta, não fazia sentido.

Ainda bem que o Felipe e o Fabricio da Dunamiz têm uma parceria bacana com o Edu, artesão dos captadores Fullertone, e como relatado na página sobre a minha nova Les Paul, será ele o cara incumbido de captar o som de minha guitarra.

O Edu fabrica seus captadores como era feito antigamente, conforme me disse em uma conversa:
"Eu faço quase tudo no pickup humbucker: a base, os pinos. A cover eu compro, daí tiro o cromo acerto a espessura na retifica  e dou banho de níquel. As bobinas plásticas compro prontas e depois faço todo o processo de bobinamento, montagem e teste. Não compro na Stewmac, faço como era feito antigamente: compro chapa, furo dobro, ajusto, dou banho de níquel, faço o logo estampado (se houver) e etc... bem artesanal mesmo. Meu trabalho mostra que é possivel fazer como antigamente e com um custo legal."
Na parte do processo que não é manual, o Edu utiliza máquinas que ele mesmo construiu, como a máquina utilizada para enrolar a bobina, como ele mesmo disse:
"Eram 4 bobinas eu alternei fiz duas manualmente e duas de modo automatizado. Esse automatizado foi inspirado na maquina da Gibson Slug 101. No caso da minha fiz com motor de limpador de parabrisa igual à da Gibson."
Uma coisa bacana do processo é que assim como no caso de uma guitarra custom shop, num kit de captadores como esse, você escolhe cada um dos detalhes:

- Com ou sem nickel cover;
- Cor das bobinas de plástico;
- Tipo de imã;
- Tipo de fiação;
- Resistência/saída.
- Uso de parafina;
- Envelhecimento.

Isso mesmo, o Edu faz uma coisa que deixa qualquer maníaco por captadores vintage alcançar o 7º céu em 2 tempos. Ele domina um processo de envelhecimento utilizando nitrogênio líquido, capaz de deixar o captador com as mesmas características de um captador com 50 anos de idade, sem que para isso você precise de leiloar seu rim para o mercado negro.

Nos meus captadores chegamos às seguintes especificações:

- Bobinas pretas;
- Cover e níquel;
- Imãs alnico II;
- Parafina no CJ (parafinar tudo iria fechar demais o som, então parafina-se somente o CJ, pois é um ponto vulnerável a microfonia);

- Captador da ponte:
 -- fios plain enamel (padrão Gibson), para terem um som menos estridente na ponte;
 -- resistência de 8,6k;

- Captador do braço:
  -- fio plain enamel na bobina interna;
  -- fio formvar (mais grosso, padrão Fender) na bobina próxima ao braço, para dar um timbre mais agudo e equilibrar a tonalidade do captador do braço em relação ao captador da ponte;
  -- resistência de 7,6k;

A única coisa que sobrou agora é a minha ansiedade... Abaixo, seguem algumas fotos (gentilmente cedidas pelo Edu) do processo de construção dos captadores da minha Les Paul.


Chapa da base do captador


Chapa cortada e furada.

Detalhe da chapa de furada e ajustada


Slug sendo usinado no torno
Chapas após banho de níquel, ao lado dos slugs

Bobina de plain ename (fios mais finos padrão Gibson)

Bobina de formvar (fio mais grosso padrão Fender)
Bobinas enroladas já com as fitas protetoras
Fitas sendo colocadas no baseplate
Humbucker montado sem Nickel Cover
Fios já organizados
Nickel cover colocado
Finalizado e pronto para o combate!
Para arrematar, o vídeo de uma Dunamiz com os captadores Fullertone (infelizmente não consegui compartilhar o vídeo de uma Les Paul, mas colocarei o link abaixo):





quinta-feira, 24 de abril de 2014

Por que uma guitarra boa é tão cara? - Parte IV

Parte III

Aaaaaaaaaaaaahhhh a beleza das curvas, das formas, das cores... A nuance do corpo.. A leveza... A suavidade... As formas marcadas e definidas do corpo.... de uma guitarra!!!

Enfim, vamos voltar a falar do acabamento.

Como estávamos falando antes, existem detalhes e detalhes. Coisas que podem tornar o instrumento algo único. Pode ser algo funcional ou apenas um detalhezinho, um frufru. E é falando sobre o frufru que vamos abrir o post de hoje: detalhes únicos.

Detalhes Únicos


Quando Leo Fender lançou sua primeira guitarra de corpo sólido, a Broadcaster (avó da telecaster), a Gibson, que até então só fabricava violões e guitarras semi-acústicas começou a perder mercado, e logo precisou de tomar alguma atitude para reverter a situação.

A Gibson lançou seu consagrado modelo Les Paul. Uma das características principais da Gibson Les Paul, e que a diferenciava da Fender Broadcaster era seu acabamento. Os luthiers da Gibson dominavam a técnica de construção de tampos arqueados, assim como tampos de violino, e essa técnica, que era pelos motivos expostos uma assinatura da Gibson, também foi utilizada no modelo Les Paul.

O grande lance é que esse trabalho de arquear o tampo é manual, custoso, e tem que ser muito bem feito, senão fica um lixo completo: os captadores e a ponte não vão se encaixar no corpo corretamente, pode ficar desnivelado e etc. Exatamente por esse motivo existem modelos de Les Paul "Plain Top", pois isso diminui os custos de fabricação da criança.

Outro detalhe da Les Paul nas séries acima da Studio, é o Binding (frisos), que é aquela linha branca que existe na borda do corpo e do braço da Les Paul. Nas Gibson o binding é feito com um material plástico que é colado ao corpo e ao braço. Apenas um esmero estético. Nas Epiphone, que é uma marca de propriedade da Gibson que faz instrumentos menos caros, o binding é uma pintura mesmo. Em termos de timbre e etc, isso não gera nenhuma diferença, mas imagine o trabalho que dá pra fazer o binding. IMAGINA O ESCAMBAU!!! No final do post tem uns vídeos mostrando como é feito o tampo arqueado e o binding.

O binding da Gibson inclusive tem gerado polêmica no modelo 2014. O que acontece é que o binding nos braços das Gibson possuiam uma parte que cobria as pontas dos trastes, uma coisa que inclusive as falsificações não copiavam. Em 2014 a Gibson passou a não colocar o binding encobrindo as pontas dos trastes, e assim, muitas pessoas ficaram aborrecidas, alegando que isso vai facilitar a falsificação de guitarras. Quem estiver afim de entender um pouco melhor essa parte do Binding, e algumas coisas mais, aqui segue o link de um EXCELENTE post do blog Louco Por Guitara.

Como prometido, aqui estão os vídeos que eu falei....

O vídeo abaixo mostra uma boa parte do processo de construção do corpo de uma Les Paul:


No vídeo abaixo a demonstração de como é feito o binding, e alguns detalhes do braço (de guitarras mais caras):


Como deu para perceber, dá um trabalho do cão fazer essa porra isso. Então imagine o seguinte: um luthier desses deve ganhar bem por baixo, uns U$20,00 por hora. Quantas horas ele leva para fazer isso tudo?

No post passado eu prometi um monte de coisas, inclusive que esse saíria na semana passada, mas eu acabei sendo pego pelo ritmo do feriadão e não terminei a tempo. Prometi também que a parte de componentes viria nesse mesmo post, mas ficou muito extenso, então, vou deixar as peças para o próximo que poderemos falar de mais alguns detalhes.

Abraços!!!



terça-feira, 15 de abril de 2014

Por que uma guitarra boa é tão cara? - Parte III

Parte I
Parte II

Existem diversas formas de dar um acabamento à uma guitarra, baixo ou violão. Algumas formas são bastante simples (e podem ser bonitas mesmo assim). Outras formas de acabamento podem ser funcionais, ou elevar um instrumento ao status de obra de arte devido à sua exclusividade.

O acabamento do corpo de um instrumento pode variar entre acabamentos que deixam a madeira totalmente exposta, dando um visual mais natural ao instrumento, até pinturas sólidas e trabalhos de escultura e marchetaria.

Esse assunto é bastante extenso, e talvez não consiga cobrir todos os aspectos que desejo em apenas um post, logo...

Acabamento Natural

Acabamentos naturais são mais comuns em violões, violinos, baixo elétrico e etc. Nesse tipo de acabamento, normalmente a madeira é encerada ou envernizada. Um detalhe importante no acabamento natural, é que nesse tipo de acabamento é difícil esconder imperfeições No caso da cera, o acabamento é menos brilhante e tem um feeling mais natural até mesmo que o verniz.

Esse tipo de acabamento é feito com óleos e ceras como o Birchwood Casey Tru-Oil. É um acabamento muitíssimo utilizado em baixos com braço inteiriço e acabamento natural.



Na imagem acima, o detalhe de um baixo com acabamento natural em verniz da Mayones Custom Shop. Como pode ser visto na imagem, todos os detalhes da madeira, bem como todas as junções das peças ficam expostos nesse tipo de acabamento. Apesar de ser o tipo de acabamento mais simples e barato que se pode ter (principalmente no caso da cera), não dá para esconder um material ruim ou mal trabalhado com esse tipo de acabamento.

Bursts com Transparência

Um tipo de acabamento clássico é o acabamento do tipo Burst, como o famoso e popular sunburst. Nesse tipo de acabamento, costuma-se deixar a parte central do corpo com uma coloração translúcida, e as bordas com uma cor mais escura, que pode ser sólida ou também translúcida.

Esse tipo de acabamento, por ser um intermediário entre o natural e o sólido, também expõe muitos detalhes da madeira. Nos casos em que as bordas e partes traseiras são pintadas em cores sólidas, apenas o centro fica exposto, como na imagem abaixo:

Corpo de Fender Stratocaster Sunburst - Detalhe das cavidades em tinta condutiva

Pintura Sólida

A pintura sólida é a favorita dos fabricantes de instrumentos baratos, pois é uma das mais baratas (é tão barata quanto verniz, mas não tanto quanto a cera), mas possibilita esconder defeitos das madeiras e também falhas construtivas.

Além da camada de pintura, em si, alguns fabricantes utilizam resinas para deixar a madeira mais lisa, e também para facilitar a aderência da tinta ao corpo do instrumento. Segundo alguns luthiers, esse tipo de resinagem prejudica um pouco a sonoridade do instrumento, além de impedir que a madeira "respire". Dessa forma, uma guitarra resinada sempre terá o mesmo som, pois a madeira não terá suas propriedades alteradas com o passar do tempo, já que a umidade estará aprisionada sob a pintura.

Uma pintura sólida não significa que o instrumento é ruim, é apenas uma pintura mais simples e mais barata. A Gibson, de longa data (início dos anos 80), utiliza a pintura sólida em guitarras com tampo de maple padrão, não-figurado, que não seriam muito beneficiados com um acabamento translúcido ou natural. As Gibson Studio em geral possuem pintura sólida, mas não pense que por isso a pintura é ruim: a Gibson pinta todas as suas guitarras com exatas 6 demãos de Nitrocelulose, que segundo informações de luthiers, é um tipo de tinta que permite a madeira respirar, apesar de ser uma pintura considerada sensível.

Em tese, a sonoridade proporcionada pelo corpo de uma Les Paul Studio é a mesma de uma Les Paul Standard. A diferença de preço se daria pelo acabamento, o tampo, que nas Standards é figurado, e os componentes, que nesse caso trazem também diferenças sonoras ao instrumento. No caso das linhas Tribute, a Gibson utiliza também a pintura com nitrocelulose, mas neste caso, sem o acabamento brilhante, dando um aspecto mais antigo, diminuindo o preço do instrumento.

Uma curiosidade da Gibson é que na pintura de suas guitarras é utilizada uma essência de baunilha, que deixa as guitarras com cheiro de sorvete, o que se tornou uma assinatura dos modelos Gibson (nas tribute isso não rola).

Outro tipo de tinta muito utilizado é o uretano, que vem sendo utilizado amplamente pela Fender em suas guitarras. É uma tinta que não necessita de resinagem, e é bastante durável.

Acabamento funcional

Além do que já foi explicado nesse artigo, o acabamento pode ter um aspecto funcional. Um exemplo de funcionalidade é a utilização de cera no acabamento dos braços. Embora uma pintura ou verniz seja muito dê um acabamento muito bonito ao braço de um instrumento, a cera faz com que a mão esquerda deslize com mais facilidade pela parte de trás do braço, pois é menos aderente que a tinta ou o verniz. Desse modo, guitarristas que toquem estilos mais rápidos preferem braços encerados, ou até mesmo o braço sem nenhum tipo de pintura ou cera.

O grande problema do uso de cera no braço, é que esse tipo de acabamento exige mais cuidados na manutenção do instrumento, pois o suor das mãos pode se impregnar à madeira fazendo-a escurecer:


Uma outra utilização de acabamento funcional está na pintura das cavidades eletrônicas dos instrumentos com tinta condutiva, como pode ser visto na segunda foto desse artigo. Esse tipo de pintura diminui as interferências eletromagnéticas na parte eletrônica do instrumento, evitando ruídos indesejados, e até mesmo interferências de rádio frequência (já rí muito com guitarras que sintonizam rádio AM e FM. Imagine no meio de uma missa começar a tocar um forró de duplo sentido nas caixas de som da igreja, ou um metal do Sabath \m/).

Bom, por hoje é só. Mas a notícia boa é que como essa semana é mais curta, poderei escrever mais, logo, teremos mais um artigo, falando um pouco mais sobre acabamento, e depois dessa brincadeira, vamos concluir a série falando sobre componentes de hardware e eletrônica.

Até!!!

quinta-feira, 27 de março de 2014

Por que uma guitarra boa é tão cara? - Parte I

Esse post com certeza será longo. Longo mesmo. Por isso eu irei dividi-lo em partes, até cansar de criar novas partes.

Sempre que um leigo vê o preço de uma guitarra BOA se assusta e acha um absurdo pagar 4, 5, 6, 10 mil Reais em um instrumento musical. Já ouvi algumas perguntas bastante inteligentes do tipo: "isso é só pela marca, né?" ou "o que é que essa guitarra tem, cordas de ouro?".

A pergunta pro si só mostra a falta de conhecimento da pessoa, que não sabe que corda é um material de consumo e não agrega em nada ao valor do instrumento ;)

Outra situação que muito ocorre é: uma pessoa compra um instrumento iludida por um vendedor mau caráter ou por um anúncio que viu numa revista e dizia: essa é a melhor guitarra, ou, melhor custo benefício. Whatever.

Vamos ao ponto: por que a guitarra BOA é CARA? Vamos explicar falando de guitarras vagabundas.

Uma boa guitarra é feita de madeira de verdade


Aí você vem e me pergunta: lá vem esse cara falar de madeira novamente... É! Venho! E falo mesmo!

Na imagem abaixo o que você vê é uma guitarra de uma marca popular, importada da China, chamada Shelter que em alguns fóruns você vê os fedelhos dizendo algo como: "um primo de um amigo meu tem uma e não perde nada para nenhuma Gibson":


A guitarra vagabunda é feita de MDF, compensado, MDP, aglomerado, e em melhores casos de madeiras baratas e ruins. No caso da guitarra acima, a dita cuja é (era, não tem conserto) de MDF.

Como pode ser visto na foto, o material do qual a guitarra é feito parece até um papelão. Fora algumas partes às quais os fabricantes ainda não inventaram uma alternativa para fugir da madeira, gambiarrar a guitarra e vender barato, todo o resto da guitarra é feito de MDF.

Infelizmente, hoje, madeira é coisa rara de se encontrar no mercado. Assim como móveis populares são feitos em MDF, as guitarras também são. E assim como móveis de MDF duram pouco, as guitarras também.

O MDF é um material que é considerado mole. É um pó de restos de madeira que é prensado misturado a um tipo de cola, e se transforma em um bloco útil para alguma coisa. Pode ser bom para fazer um tampo de mesa de centro, ou um criado mudo, mas não é bom para guitarra em nenhuma hipótese, e vamos enumerar alguns dos motivos (caso tenha mais motivos, coloque no comentário que eu vou colocar aqui e dar o crédito de quem colaborou) :
  1. MDF não é ressonante - por ser mole o MDF tende a não vibrar junto com as cordas, e por ser flexível (não é flexível em termos humanos, mas em termos de física), o som MORRE. Por isso, não importa qual é a captação, ou as ferragens, o som vai ser ruim.
  2. Não tem sustain - pelos mesmos motivos do item 1 a guitarra não vai ter sustain. Sustain e ressonância são basicamente a mesma coisa, mas são percebidos por nossos ouvidos de modos distintos. Pode notar que uma guitarra muito ressonante tem muito sustain, e vice e versa.
  3. Não segura a afinação e sofre MUITO com variações de temperatura - Pelos motivos dos itens 1 e 2 a guitarra não segura a afinação. Para se ter uma idéia, um jogo de cordas 0.10 gera uma tensão de aproximadamente 46 kgf (quilograma-força) no braço da guitarra. Não é preciso explicar muito para entender que um material que mais parece um papelão não tem cacife para aguentar o regaço.
  4. Dura pouco - Sim, isso conta. Mesmo que você pense "é só para eu aprender, depois eu pego uma melhor", isso conta. Ninguém quer pagar caro por um produto descartável. Existem guitarras vagabundas que estão durando, mas na maioria dos casos a parada acaba em 5 anos, nó máximo. Não que vá quebrar, como a da foto, mas o braço ferra, para de aguentar a tensão das cordas, daí fica impossível de se afinar, ou coisas do gênero.
Aí você me pergunta: "Então se eu quiser uma guitarra de madeira, tenho que pagar uma fortuna?"

Eu te respondo: NÃO. Você não vai ter a melhor madeira, ou nem terá a madeira utilizada da melhor maneira (falarei disso depois), mas você terá um instrumento de madeira. Existem marcas que fazem guitarras com ótimo custo-benefício. Guitarras com acabamento honesto, madeiras de verdade, e que para um guitarrista médio, o cara que não está afim de pagar caro por um instrumento, mas quer fazer um som com os amigos de vez em quando. Vou listar algumas dessas marcas abaixo:
  • Cort - de longe é uma das marcas com melhor custo-benefício do mercado. Possui guitarras muito legais como a M600;
  • Epiphone - As semi-acústicas são em geral boas guitarras. As Les Paul Standard para cima são legais também, bem como as Wilshire, Firebird e outras, mas cuidado, algumas linhas como a Les Paul Jr. são bem vagabundas;
  • Squier - Fabrica modelos de Strato e Tele de linhas como a Standard, que são bem honestas, mas cuidado algumas linhas mais baratas são bem vagabundas;
  • Condor - faz guitarras bastante honestas. Tem uma Telecaster da Condor que é um showzinho, e custa pouco mais de R$1000,00;
  • Ibanez - muitas guitarras de entrada da Ibanez são interessantes, como as GIO;
  • Washburn - também faz guitarras de entrada muito legais, com bom custo-benefício;
Mais um detalhe faz diferença no caso da madeira: a quantidade de peças de madeira utilizadas. Em tese, se um corpo é feito com uma única peça de uma determinada madeira, este será melhor que um corpo feito com duas peças da mesma madeira, mas se você quer um corpo de uma única peça, esteja disposto a pagar uma fortuna por isso. É raríssimo conseguir uma boa peça de madeira com tamanho suficiente para fazer um corpo de guitarra.

Em alguns casos específicos os fabricantes utilizam peças de dois ou mais tipos de madeira distintos para conseguir melhorias no timbre, ou apenas para dar um efeito visual bacana. A Gibson Les Paul é um instrumento que geralmente é construído com um corpo de duas peças de mogno e tampo em duas peças de maple. Além do maple ter um visual muito bonito, a "mistura" serve para equilibrar as caracteríscas sonoras do mogno.



Acima uma Gibson Les Paul Standard Premium Quilt 2014 e uma Gibson Les Paul Standard 2014 ostentando seus tampos de maple figurado (figurado por que a madeira tem esse desenho bonito pakacete que é até um tanto 3D). Alguns fabricantes utilizam apenas uma fina camada de maple para obter o mesmo efeito visual, ou pintam a madeira para dar um efeito figurado. Nesse caso o maple não é suficiente para alterar o timbre do instrumento. É bom ter cuidado ao adquirir guitarras baratas, pois o fabricante pode utilizar esse tipo de artimanha para esconder uma madeira ruim.

Uma boa guitarra é bem construída


Nada adianta ter um material FODA se o cara que vai construir o instrumento não sabe como fazê-lo. É como comida. Você dá os mesmos ingredientes para um cozinheiro foda e para mim. Aí você pede para que preparemos um prato. O cozinheiro foda vai fazer uma comida foda. Eu farei uma gororoba intragável.

Um amigo meu costuma dizer que determinadas guitarras são feitas no facão.

Lembra-se das Jennifer? Então, as Jennifer eram feitas com madeiras Brasileiras pesadas que em tese são ótimas, porém eram construídas na base do facão, sem nenhuma técnica adequada, sem nenhum cuidado com a qualidade do instrumento.

São os detalhes que fazem total diferença na construção, como a forma que é realizado o corte da madeira. Um braço, por exemplo, precisa que a madeira seja cortada paralela aos veios, pois isso é o que dará a firmeza para o braço aguentar a tensão. O encaixe entre o braço e o corpo precisam de ser cortados e polidos em um tamanho preciso para que não haja nenhuma folga na junção das partes, garantindo o sustain e ressonância. Isso serve também para outras peças encaixadas como pontes, cordais, tarraxas, entre outras, pois um corte folgado pode ser o que separa um instrumento perfeito de uma porcaria SEM CONSERTO. Isso, sem conserto. Fez um furo maior na madeira no local onde entrará a tarraxa? Não tem solução. Qualquer solução seria porca, ruim, e inadequada. É para jogar o braço fora e fazer outro do zero. Fudeu!

Por isso, as guitarras mais caras passam por um controle de qualidade extremamente rígido. Os luthiers não são apenas mais experientes e os equipamentos mais modernos, mas há um controle de qualidade muito grande em cima desses instrumentos. Quanto mais caro se paga pelo instrumento, mais manual é o processo de confecção, melhores são os materiais, e também os luthiers que o contruíram, e essa última parte é bem simples de entender: o luthier mais experiente e mais talentoso ganha mais que o luthier menos experiente, logo, esse valor é repassado para o valor do instrumento.


Na foto acima, uma Fender Select Stratocaster Exotic Maple Quilt. Bonita né? Aí você me diz uma do tipo: "é, mas por que custar U$3000,00?".

Vamos olhar mais de perto?


Observem o detalhe da forma como a escala é colocada no braço. Sugiro que abram a imagem em outra janela para verem um pouco melhor.

É a perfeição! O que falar de um instrumento como esse? É uma verdadeira obra de arte, que não se alcança sem muitos anos de prática, conhecimento da construção de instrumentos. Nem de longe.

Vejam abaixo os detalhes de outra Fender Select.


Bonita né?

E isso?


E agora isso?


É um nível tão extremo de cuidado, esmero, perfeccionismo, que o fabricante se orgulha de ter feito uma verdadeira obra de arte. O fabricante CRAVA seu próprio nome no instrumento e dá a ele uma medalha dizendo: fui eu que fiz, e é especial, é foda, é perfeito!

É isso. No próximo post vamos falar um pouco mais sobre os detalhes de um instrumento que fazem toda a diferença não só no visual do instrumento, mas no que é mais importante: o que você está ouvindo!

Abraços!