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domingo, 23 de novembro de 2014

Les Paul Dunamiz Pronta

Pessoal, a minha Dunamiz DZ59 está pronta.

As fotos e a história estão na página. Segue o link:

http://euamoguitarra.blogspot.com.br/p/dunamiz-les-paul.html

sábado, 5 de abril de 2014

Por que uma guitarra boa é tão cara? - Parte II

Após o post Por que uma guitarra boa é tão cara? - Parte I recebi elogios, críticas, sugestões, e a quantidade de leitores me surpreendeu bastante.

Mas vamos parar de blablablá e voltar a falar do que interessa.

Braço Forte, guitarra boa

Um bom braço é um componente fundamental para uma boa guitarra. Um braço "molenga" não vai aguentar a tensão das cordas, não vai permitir que elas sejam afinadas, e vai mandar toda a vibração das cordas para o espaço. O que você perde? Se você respondeu sustain e ressonância, você  acertou.

Vamos explicar: imagine que ao invés de um braço confeccionado em madeira sólida, você tivesse em mãos uma régua de plástico. Ao esticar uma corda na régua, conforme se fosse enrolando e tencionando a corda na tarraxa, a régua iria entortar, e talvez chegaria a quebrar, dependendo do plástico. Dessa forma, a corda jamais chegaria na afinação. Isso ocorre com braços danificados, ou mesmo com braços ruins, ao afinar uma corda, outras cordas acabam desafinando, dificultando muito a afinação do instrumento, e muitas vezes impedindo que a guitarra seja afinada.

Quanto ao sustain e a ressonância, a explicação é mais simples: vamos fazer a analogia entre um tênis com um bom amortecedor e um braço de guitarra ruim. Difícil entender? O que é bom para um tênis é ruim para um braço de guitarra. PONTO. Um tênis bom tem um amortecedor macio, que consegue absorver o impacto do seus pés e diminuir assim a fadiga. Um tênis ruim é aquele que você pisa duro e fica com os pés doendo. Um braço mole, fraco, vai absorver toda a vibração das cordas, e o instrumento irá ter pouco sustain, e pouca ressonância.

Pelo exposto acima, um bom braço precisa de ser feito com madeiras resistentes, cortadas no mesmo sentido dos seus veios, para manter a firmeza e suportar a tensão das cordas.

A madeira da escala do braço é outro ponto que segundo alguns, faz diferença. Existem controvérsias nessa questão. Enquanto alguns guitarristas e luthiers afirmam que a madeira da escala faz diferença em termos sonoros, outros dizem que não faz e que não passa de lenda.

Pelo sim pelo não, explicarei. Os dois tipos mais populares de madeira utilizados na escala são o maple, e o rosewood.

De acordo com o site inglês Andertons o rosewood, ou jacarandá aqui em Terra Brasilis, é uma madeira de cor escura, e que por ser mais oleosa não precisa de um acabamento muito complexo ao ser instalada nos braços de guitarra, por esse motivo, a madeira um pouco porosa, não "reflete" tanto o som das cordas, proporcionando um timbre mais grave, menos estalado. Além disso, é interessante para quem gosta de sentir a textura da madeira na ponta dos dedos.

Já o maple, precisa de ser polido, envernizado ou encerado, se tornando uma peça lisa, com aparência menos natural, que "reflete" o som das cordas, proporcionando um timbre um pouco mais agudo e estalado. Também é interessante para quem prefira uma escala mais "lisa".

Ainda sobre madeiras, o ébano também é utilizado por muitos fabricantes, mas não se engane. Apesar do ébano ser um tipo de madeira de cor escura, o timbre é tratado como sendo mais agudo e estalado, além da escala ser mais lisa.

Aumentando a tensão

Além da madeira do braço e da escala, existe ainda um outro componente : o tensor.

O tensor é uma haste de metal que é instalada no interior do braço do instrumento,  e que possui uma ponta acessível na parte externa do braço, para que com algum tipo de chave, como uma chave allen, o braço possa ser regulado, permitindo que a curvatura do braço seja ajustada de acordo com a tensão das cordas utilizadas, e também de acordo com as variações do clima (que altera a dilatação da madeira e das cordas, e consequentemente a curvatura do braço).

No início as guitarras não possuiam esse recurso, e por este motivo em determinadas circunstâncias de variação de temperatura o instrumento começava a trastejar (as cordas encostam nos trastes ao vibrar, provocando um chiado no som). Em situações mais graves, as cordas encostavam no braço, fazendo com que fosse impossível tocar.

Nessas circunstâncias, era necessário fazer alterações drásticas: descolar o braço, efetuar cortes ou enchimentos na junção entre braço e corpo, e depois recolocar o braço. Esse procedimento envolvi refazer o acabamento do instrumento, pois uma vez descolado o braço, ocorriam danos no acabamento.

O crédito de criação do tensor no braço da guitarra é do renomado Leo Fender, que ao criar a avó da Telecaster, chamada de Esquire, estava recebendo muitas reclamações de braços empenados, além de guitarras devolvidas. Dessa forma o cara criou a Broadcaster, evolução da Esquire com um tensor no braço e dois captadores, mas isso é história para outro momento.



As imagens acima são de propagandas da Fender na década de 50, logo após a introdução dos tensores nos braços de suas guitarras, com o slogan "Nos apoiamos sobre nossa reputação". Será que uma guitarra vagaba teria essa reputação?  ;)

Abaixo, uma foto de um braço cortado e visto de lado com o tensor sendo mostrado (em azul):


E na foto abaixo podem ser vistos os tipos mais comuns de ponta utilizados para ajuste do tensor (créditos Music Diary):


Facilitando a saída do som

As guitarras e violões são descendentes diretos de instrumentos mais antigos como a cítara. Os primeiros instrumentos de corda não possuíam trastes, assim como os violinos, violoncelos e baixos (baixo clássico, ok?).

Ainda assim, existem violões e guitarras e principalmente baixos sem trastes, ou fretless, mas estes exigem um grau um pouco maior de habilidade para tocar, já que tirar som desses instrumentos é um pouco mais difícil.

Guitarra Fretless (http://adrianlikins.com/)
Os trastes foram introduzidos para facilitar a tocabilidade dos instrumentos. Hoje, as principais características dos trastes são a altura, largura, e o material utilizado.

Grande parte dos guitarristas prefere os trastes medium-jumbo, que não são os mais altos, nem os mais baixos, são trastes médios. Há quem prefira os trastes jumbo, estes, bem altos. Na imagem abaixo, alguns exemplos de trastes encontrados atualmente no mercado:


A grande vantagens de trastes mais altos é que estes facilitam a execução de bends e vibratto, além de aumentarem a sensação de "maciez" das cordas, já que quanto mais altos os trastes, menos os dedos encostam na escala.

Nas guitarras mais caras, os trastes utilizados são normalmente de boa qualidade, feitos em materiais duráveis como aço inoxidável ou criogênico (é um aço que passa por um processo de congelamente em baixíssimas temperaturas, que tornam o traste mais resistente e durável). A parte mais importante quanto aos trastes nas guitarras mais caras é a instalação dos trastes. Os trastes, são instalados cuidadosamente no braço, a após a instalação os trastes são polidos e nivelados para que não haja trastejamento e as notas saiam bem definidas.

Trastes de boa qualidade tendem a durar mais, e sofrem menor desgaste. A troca de trastes é um dos procedimentos de manutenção mais sensíveis, e exigem habilidade do luthier. Por isso, antes de fazer a substituição de trastes, procure um luthier de confiança, e com boas referências.

Não utilizar cordas enferrujadas também é algo que prolonga a vida útil dos trastes, evitando que estes enferrujem e se desgastem. E pode ter certeza: trocar os trastes é um procedimento caro e arriscado. O vídeo abaixo demonstra o procedimento de troca de trastes:


Ainda temos bastante coisa para falar, portanto, até a próxima!

quinta-feira, 27 de março de 2014

Por que uma guitarra boa é tão cara? - Parte I

Esse post com certeza será longo. Longo mesmo. Por isso eu irei dividi-lo em partes, até cansar de criar novas partes.

Sempre que um leigo vê o preço de uma guitarra BOA se assusta e acha um absurdo pagar 4, 5, 6, 10 mil Reais em um instrumento musical. Já ouvi algumas perguntas bastante inteligentes do tipo: "isso é só pela marca, né?" ou "o que é que essa guitarra tem, cordas de ouro?".

A pergunta pro si só mostra a falta de conhecimento da pessoa, que não sabe que corda é um material de consumo e não agrega em nada ao valor do instrumento ;)

Outra situação que muito ocorre é: uma pessoa compra um instrumento iludida por um vendedor mau caráter ou por um anúncio que viu numa revista e dizia: essa é a melhor guitarra, ou, melhor custo benefício. Whatever.

Vamos ao ponto: por que a guitarra BOA é CARA? Vamos explicar falando de guitarras vagabundas.

Uma boa guitarra é feita de madeira de verdade


Aí você vem e me pergunta: lá vem esse cara falar de madeira novamente... É! Venho! E falo mesmo!

Na imagem abaixo o que você vê é uma guitarra de uma marca popular, importada da China, chamada Shelter que em alguns fóruns você vê os fedelhos dizendo algo como: "um primo de um amigo meu tem uma e não perde nada para nenhuma Gibson":


A guitarra vagabunda é feita de MDF, compensado, MDP, aglomerado, e em melhores casos de madeiras baratas e ruins. No caso da guitarra acima, a dita cuja é (era, não tem conserto) de MDF.

Como pode ser visto na foto, o material do qual a guitarra é feito parece até um papelão. Fora algumas partes às quais os fabricantes ainda não inventaram uma alternativa para fugir da madeira, gambiarrar a guitarra e vender barato, todo o resto da guitarra é feito de MDF.

Infelizmente, hoje, madeira é coisa rara de se encontrar no mercado. Assim como móveis populares são feitos em MDF, as guitarras também são. E assim como móveis de MDF duram pouco, as guitarras também.

O MDF é um material que é considerado mole. É um pó de restos de madeira que é prensado misturado a um tipo de cola, e se transforma em um bloco útil para alguma coisa. Pode ser bom para fazer um tampo de mesa de centro, ou um criado mudo, mas não é bom para guitarra em nenhuma hipótese, e vamos enumerar alguns dos motivos (caso tenha mais motivos, coloque no comentário que eu vou colocar aqui e dar o crédito de quem colaborou) :
  1. MDF não é ressonante - por ser mole o MDF tende a não vibrar junto com as cordas, e por ser flexível (não é flexível em termos humanos, mas em termos de física), o som MORRE. Por isso, não importa qual é a captação, ou as ferragens, o som vai ser ruim.
  2. Não tem sustain - pelos mesmos motivos do item 1 a guitarra não vai ter sustain. Sustain e ressonância são basicamente a mesma coisa, mas são percebidos por nossos ouvidos de modos distintos. Pode notar que uma guitarra muito ressonante tem muito sustain, e vice e versa.
  3. Não segura a afinação e sofre MUITO com variações de temperatura - Pelos motivos dos itens 1 e 2 a guitarra não segura a afinação. Para se ter uma idéia, um jogo de cordas 0.10 gera uma tensão de aproximadamente 46 kgf (quilograma-força) no braço da guitarra. Não é preciso explicar muito para entender que um material que mais parece um papelão não tem cacife para aguentar o regaço.
  4. Dura pouco - Sim, isso conta. Mesmo que você pense "é só para eu aprender, depois eu pego uma melhor", isso conta. Ninguém quer pagar caro por um produto descartável. Existem guitarras vagabundas que estão durando, mas na maioria dos casos a parada acaba em 5 anos, nó máximo. Não que vá quebrar, como a da foto, mas o braço ferra, para de aguentar a tensão das cordas, daí fica impossível de se afinar, ou coisas do gênero.
Aí você me pergunta: "Então se eu quiser uma guitarra de madeira, tenho que pagar uma fortuna?"

Eu te respondo: NÃO. Você não vai ter a melhor madeira, ou nem terá a madeira utilizada da melhor maneira (falarei disso depois), mas você terá um instrumento de madeira. Existem marcas que fazem guitarras com ótimo custo-benefício. Guitarras com acabamento honesto, madeiras de verdade, e que para um guitarrista médio, o cara que não está afim de pagar caro por um instrumento, mas quer fazer um som com os amigos de vez em quando. Vou listar algumas dessas marcas abaixo:
  • Cort - de longe é uma das marcas com melhor custo-benefício do mercado. Possui guitarras muito legais como a M600;
  • Epiphone - As semi-acústicas são em geral boas guitarras. As Les Paul Standard para cima são legais também, bem como as Wilshire, Firebird e outras, mas cuidado, algumas linhas como a Les Paul Jr. são bem vagabundas;
  • Squier - Fabrica modelos de Strato e Tele de linhas como a Standard, que são bem honestas, mas cuidado algumas linhas mais baratas são bem vagabundas;
  • Condor - faz guitarras bastante honestas. Tem uma Telecaster da Condor que é um showzinho, e custa pouco mais de R$1000,00;
  • Ibanez - muitas guitarras de entrada da Ibanez são interessantes, como as GIO;
  • Washburn - também faz guitarras de entrada muito legais, com bom custo-benefício;
Mais um detalhe faz diferença no caso da madeira: a quantidade de peças de madeira utilizadas. Em tese, se um corpo é feito com uma única peça de uma determinada madeira, este será melhor que um corpo feito com duas peças da mesma madeira, mas se você quer um corpo de uma única peça, esteja disposto a pagar uma fortuna por isso. É raríssimo conseguir uma boa peça de madeira com tamanho suficiente para fazer um corpo de guitarra.

Em alguns casos específicos os fabricantes utilizam peças de dois ou mais tipos de madeira distintos para conseguir melhorias no timbre, ou apenas para dar um efeito visual bacana. A Gibson Les Paul é um instrumento que geralmente é construído com um corpo de duas peças de mogno e tampo em duas peças de maple. Além do maple ter um visual muito bonito, a "mistura" serve para equilibrar as caracteríscas sonoras do mogno.



Acima uma Gibson Les Paul Standard Premium Quilt 2014 e uma Gibson Les Paul Standard 2014 ostentando seus tampos de maple figurado (figurado por que a madeira tem esse desenho bonito pakacete que é até um tanto 3D). Alguns fabricantes utilizam apenas uma fina camada de maple para obter o mesmo efeito visual, ou pintam a madeira para dar um efeito figurado. Nesse caso o maple não é suficiente para alterar o timbre do instrumento. É bom ter cuidado ao adquirir guitarras baratas, pois o fabricante pode utilizar esse tipo de artimanha para esconder uma madeira ruim.

Uma boa guitarra é bem construída


Nada adianta ter um material FODA se o cara que vai construir o instrumento não sabe como fazê-lo. É como comida. Você dá os mesmos ingredientes para um cozinheiro foda e para mim. Aí você pede para que preparemos um prato. O cozinheiro foda vai fazer uma comida foda. Eu farei uma gororoba intragável.

Um amigo meu costuma dizer que determinadas guitarras são feitas no facão.

Lembra-se das Jennifer? Então, as Jennifer eram feitas com madeiras Brasileiras pesadas que em tese são ótimas, porém eram construídas na base do facão, sem nenhuma técnica adequada, sem nenhum cuidado com a qualidade do instrumento.

São os detalhes que fazem total diferença na construção, como a forma que é realizado o corte da madeira. Um braço, por exemplo, precisa que a madeira seja cortada paralela aos veios, pois isso é o que dará a firmeza para o braço aguentar a tensão. O encaixe entre o braço e o corpo precisam de ser cortados e polidos em um tamanho preciso para que não haja nenhuma folga na junção das partes, garantindo o sustain e ressonância. Isso serve também para outras peças encaixadas como pontes, cordais, tarraxas, entre outras, pois um corte folgado pode ser o que separa um instrumento perfeito de uma porcaria SEM CONSERTO. Isso, sem conserto. Fez um furo maior na madeira no local onde entrará a tarraxa? Não tem solução. Qualquer solução seria porca, ruim, e inadequada. É para jogar o braço fora e fazer outro do zero. Fudeu!

Por isso, as guitarras mais caras passam por um controle de qualidade extremamente rígido. Os luthiers não são apenas mais experientes e os equipamentos mais modernos, mas há um controle de qualidade muito grande em cima desses instrumentos. Quanto mais caro se paga pelo instrumento, mais manual é o processo de confecção, melhores são os materiais, e também os luthiers que o contruíram, e essa última parte é bem simples de entender: o luthier mais experiente e mais talentoso ganha mais que o luthier menos experiente, logo, esse valor é repassado para o valor do instrumento.


Na foto acima, uma Fender Select Stratocaster Exotic Maple Quilt. Bonita né? Aí você me diz uma do tipo: "é, mas por que custar U$3000,00?".

Vamos olhar mais de perto?


Observem o detalhe da forma como a escala é colocada no braço. Sugiro que abram a imagem em outra janela para verem um pouco melhor.

É a perfeição! O que falar de um instrumento como esse? É uma verdadeira obra de arte, que não se alcança sem muitos anos de prática, conhecimento da construção de instrumentos. Nem de longe.

Vejam abaixo os detalhes de outra Fender Select.


Bonita né?

E isso?


E agora isso?


É um nível tão extremo de cuidado, esmero, perfeccionismo, que o fabricante se orgulha de ter feito uma verdadeira obra de arte. O fabricante CRAVA seu próprio nome no instrumento e dá a ele uma medalha dizendo: fui eu que fiz, e é especial, é foda, é perfeito!

É isso. No próximo post vamos falar um pouco mais sobre os detalhes de um instrumento que fazem toda a diferença não só no visual do instrumento, mas no que é mais importante: o que você está ouvindo!

Abraços!